Publicado em: Junho 20, 2010
Categoria: Smart Gloss |
Por estranho que pareça, as conversas mais gratificantes e as pessoas mais interessantes que tenho tido e conhecido são meros acasos do destino (serão?). Descubro estes “tesourinhos”, como gosto de lhes chamar, nos sítios mais improváveis. O rapaz gozão do grupo, aquele de quem todos esperam soltar uma gargalhada depois de abrir a boca, é, afinal, um amante de História e as suas opiniões são fundamentadas, conversa sobre assuntos da actualidade com uma lucidez que em poucos conheço. Ninguém dá nada por ele. Têm-no como um básico. O borguista que anda metade do tempo nos copos e a outra metade bêbedo, apesar de ter a síndrome do Peter Pan (ser criança para sempre) é também um miúdo sensível que se preocupa com a família e com ter boas notas para não desiludir os pais, mesmo que para isso passe as ressacas a estudar. A miúda gira e superficial que “é boa mas não tem nada na cabeça” aos olhos dos outros é apaixonada por livros e é capaz de nos brindar com uma análise sociológica à luz de Flaubert ou Eça de Queiroz. O problema da sociedade de hoje em dia é que somos uns egocêntricos e estamos sempre a subestimar o Outro. Durante a nossa adolescência, houve muito pouca coisa capaz de nos surpreender, eram só facilidades e era “fixe” sermos “o mais maluco”, e por isso desabituámo-nos de admirar quem tinha mérito para nos superarmos e sermos ainda mais irreverentes, sem sabermos – ingénuos – que é na experiencia dos outros que enriquecemos a nossa. Colho com gosto aquilo que os outros têm de diferente de mim, absorvo e torno meu também. No outro dia, falava com um dos meus “cimélios” que me dizia que o melhor era estarmos “incomodados”. Que sentíssemos falta de qualquer coisa e que andássemos constantemente à procura disso nos outros. Soprava o filtro antes de acender o cigarro e contava-me como sentia este incómodo: “Acho que posso sempre estar melhor, entendes? Quando estava nos aviões – ele é piloto de profissão e neste momento trabalha num restaurante – tinha um sitio específico para tudo, dentro do cockpit. Esta arrumação conforta-me.” Imediatamente parti para a conclusão de que ele, além de obsessivo-compulsivo, devia ter uma pancada fortíssima. Mas com o desenrolar da conversa, apercebi-me de que falávamos da mesma coisa com palavras diferentes. O prazer do brio no trabalho e fazer as coisas bem feitas, o melhor que se pode, seja onde for. “Claro que não me satisfaz tanto como ser o melhor piloto, mas pretendo ser o melhor em tudo o que faço.” E o que ele faz não é viajar pelo mundo e conduzir monstros mecânicos com 300 pessoas lá dentro como tinha planeado fazer e ser o melhor… é servir primeiro os mais velhos, ajudar as senhoras com os casacos e com as malas. “Isso satisfaz-me, mas não me completa. De maneira alguma. Hei-de estar completo quando…” A frase não termina como esperava, em vez disso acrescenta com um sorriso: “Sou um grande ´muita feliz´ mas com um grande MAS, que é o facto de saber que posso ser muito melhor.” Não me lembro do que pensei para além de me ter apercebido de que ele era viciado em ambição quando me disse que “´fazer por´ é bom, conseguir está muito abaixo”. De todos os vícios com que já me cruzei, este é, sem dúvida, curioso… deste “tesourinho”, tirei uma grande conclusão para mim: conseguir aquilo que quero e por que me esforço não “está muito abaixo”, a mim mantém-me optimista e não sou uma “incomodada” e também não sou uma acomodada. Mais uma vez, não julgo o livro pela capa, nem pela primeira página. Toda a gente tem alguma coisa para nos ensinar, e na maioria dos casos é uma lição sobre nós próprios. Esta foi na Adega do Manel, no centro comercial da Portela, onde o Bife a cavalo vem com batatas e salada e com uma óptima conversa a acompanhar que alimenta o estômago e a alma. Cristina Fialhocristina_fialho@noticiasdaportela.pt
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